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PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

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22.Jan.19

Tourada dos Estudantes com dias contados (Entrevista DI)

Entrevista Tourada dos Estudantes DI 22jan19 capa.A Tourada dos Estudantes pode acabar este ano. Miguel Sousa Azevedo, que participou uma dezena de vezes na iniciativa, considera que é tempo de refletir sobre o futuro da tradição carnavalesca.

A Tourada dos Estudantes pode não se realizar este ano por falta de instalações para a construção dos adereços para o desfile do domingo de Carnaval na Rua da Sé. Considera que ainda há tempo para ultrapassar esta dificuldade?
Se, efetivamente, for esse o único obstáculo à realização da Tourada dos Estudantes, penso que ainda será possível fazer alguma coisa. Embora algo tardiamente, o grupo que pretende continuar a fazer a Tourada, está a apelar à ajuda de quem a queira e possa dar. É indispensável haver um espaço para fazer as construções - que depois abrilhantam o espalhafatoso cortejo e o espetáculo na praça -, com um mínimo de condições, sendo que esse é um problema crónico. 

Nos últimos 25 anos houve perto de dezena e meia de locais - uns melhores, outros piores - a albergar as construções que, mais que um sítio de trabalho, eram o local de reuniões, de festas, de caloiradas, de um convívio que se estendia até para fora dos participantes da garraiada. 
Ou seja, estamos a falar de uma parte fulcral de todo o desenrolar de um ano de Tourada dos Estudantes que, caso seja apenas uma coisa arranjada à pressa, também desvirtua o que é a tradição.

Caso se confirme a não realização da Tourada dos Estudantes poderá ser o fim da tradição?
Recordo que, nos últimos anos, tem sido quase dramático ter essa nossa velha tradição na rua. E o que tem acontecido, com todo o respeito pelos intervenientes, já não é a Tourada dos Estudantes, mas uma espécie de recriação do evento, onde apenas o cortejo se realiza da mesma forma. E não há que atribuir culpas a ninguém, nem dizer que antigamente é que era bom. 

O paradigma social de Angra também mudou e a Tourada dos Estudantes, que nos anos 90 perdeu - e ainda bem -, um certo estatuto de elite urbana, também se ressentiu de tudo isso. Os jovens de hoje estão espalhados por várias escolas, têm imensas solicitações e até o próprio Carnaval - e aqui não estou a falar de danças nem de bailinhos, atente-se - passou a ser vivido de outra forma dentro da cidade. 
Dou um exemplo também gritante, que é o cartaz que anuncia a tourada, e que se distribui pelas ruas nas semanas que a antecedem, que foi "aguentando" o decréscimo de popularidade do evento. 
E nunca deixou cair a crítica social mordaz que é o verdadeiro código genético de uma festa que conta quase 100 anos de existência. E que atravessou a Ditadura. Esse é outro ícone que se poderá perder, infelizmente. 
Como se explica o desinteresse por aquela que foi durante décadas uma das mais marcantes formas de celebrar o Carnaval em Angra do Heroísmo?
Há uma razão que aponto há anos e que tem a ver com o desaparecimento do toureio da garraiada. Ou seja, a parte "séria" da Tourada dos Estudantes passou a resumir-se aos forcados que, justiça lhes seja feita, também "seguraram" - e muito - a restante empreitada em várias ocasiões. 
Mas a verdade é que, sendo a Terceira uma terra de aficionados, e tendo sido a Tourada dos Estudantes o berço de quase todos os nomes grandes da nossa tauromaquia, o facto de não termos jovens aspirantes a novilheiros, e muito menos futuros cavaleiros, resumiu o espetáculo aos números cómicos - na minha modesta opinião, já sem qualquer ordem ou temática - e a uma sucessão de pegas. E o público deixou de aparecer. Sem público, a Tourada dos Estudantes deixa de ter razão de existir. E sei que esse vai ser um rude golpe, especialmente para aqueles que se agarraram à nostalgia dos seus tempos de liceu. E não perceberam que tudo hoje está diferente. 
Sem alongar demais os desabafos, também não concordo que se criem associações e se vá em busca de dinheiros públicos para organizar a Tourada dos Estudantes.
Se ela não for uma tradição sustentável e independente, o mote da sua criação já estará morto e enterrado.

Quais são as memórias que guarda de uma dezena de participações na Tourada dos Estudantes?

Entrei sempre como cómico na Tourada dos Estudantes, e fiz parte da Comissão Organizadora em 1997, na edição em que o Tiago Pamplona se estreou como cavaleiro, penso que participei da festa dez vezes, mesmo depois de já não ser estudante em Angra. Lembro-me de coisas giras como o delinear das personagens, roupas, etc, para o cortejo, com direito a reunião magna para definir bem as coisas; os dias da Tenta, que eram uma outra festa, em que "invadíamos" a cidade de manhã, para depois rumar ao mato, numa viagem de autocarro que só vista. Em 1997, fomos buscar o pessoal ao Liceu de Angra vestidos de pescadores, com caniços e a pescar, em cima do autocarro! Os domingos da volta à ilha a anunciar a tourada - uma semana antes de se realizar - acumularam um sem fim de histórias e episódios...posso recordar uma entrada dos cómicos no Pavilhão Municipal, ou num jogo de futebol, que certamente quem viveu não esquece. 
Mas sublinho, especialmente, uma amizade e uma união muito grandes, com enorme respeito pelos mais velhos e que nos ajudavam a alinhavar todo o espetáculo. Que era isso mesmo, um espetáculo, com uma espécie de coreografia "desorganizada", mas sem um excesso de atropelos e onde era a comissão que decidia tudo. 

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