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PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

O fenómeno Capicua.

22.08.14, MSA

Capicua...on the stage.

Foto: D.R.

 

Sou um mau consumidor de música, é um facto. Tenho gostos indefinidos, politicamente incorretos, fora de tempo. Mas quando aprecio uma coisa não a largo. Um som, uma batida, uma letra que envolva a simples ação de ouvir música. Tornando-a num momento único, mas que podemos sempre voltar a sentir com um pequeno toque.

Foi numa entrevista noturna da Antena 3, que me acompanhou numa pouco frequente caminhada - estava na Horta, sei bem - que percebi quem era a Capicua. Já tinha ouvido qualquer coisa agradável, mas nada que me ligasse a Ana Matos Fernandes, portuense de Cedofeita, que logo me falou ao coração, dada a forma desmedida com que partilhou emoções, ligações e palavras. Muitas palavras, em cujo poder ainda não perdeu a fé. E que usou e usa com um carinho fantástico...

E esta Capicua - que é um número palíndromo, cujo reverso é ele próprio - vem-se revelando um verdadeiro fenómeno. Joga com as frases e apresenta-nos facetas tão portuenses como os Aliados, a Ribeira ou a própria Cidade Invicta. É um doce de descobrir. A sua música - ah, esqueci-me de referir, a pequena é uma rapper que vai correndo o país, e não só, a encantar... - é amplamente urbana, melancolicamente tradicional, e incómoda. Porque nos aponta setas aos sentidos e porque nos revemos - mesmo contrariados - neste verso ou naquela rima. Há um toque anos 80, há uma modernidade poética, há no fundo uma repetição melódica que nos atraí. Porque encerra bom gosto, inteligência e a violência inerente a quem protesta. E depois é tão tripeira, tão amplamente nortenha, que me mexe com as costelas de origem...

Mesmo mais nova, absorve a minha geração em várias imagens e provocações. E mais do que a apreciação técnica - mas frisando que tem versões acústicas excelentes -, que desdenho sempre que há música a embalar-me os dias, tenho de realçar a forma sincera como canta, como diz e como (nos) acusa, esta Ana Capicua, rapper portuense e artista da nova vaga. Há um sample a preceito em cada saída das suas canções/recordações. Há entradas fortes, ritmos marcados, excertos claros de outras referências, e um assumir de ser MC (Maria Capaz), de Serei(a Louca), de ser sonhadora, de ser legível de trás para a frente. De dividir com a crítica e com o grande público a intimidade de uma jovem portuguesa, licenciada, doutorada, culta, aventureira e perspicaz. Uma Capicua que tem amigos imaginários, que nem é muito gira, que usa aparelho nos dentes, que faz vida solitária tendo companhia, que nos enternece e agride. Tal como a vida.

E que terá como perfumes favoritos o pão quente, a terra molhada e o manjerico. Pelo menos um deles é também o nosso. De todos nós. Uma Capicua que vamos ver e ouvir daqui por uns dias, em Angra. Seja bem vinda!

 

Crónica no

 

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