Embarcar o preconceito…

Se há coisa que cada vez mais as pessoas fazem é encher a boca a expurgar os preconceitos. Ou seja, já ninguém é preconceituoso e já ninguém julga os outros por modas ou influências, muitas vezes injustamente. Era bom que assim fosse, só que não.
As pessoas - os portugueses, os açorianos, o mundo – ainda são bastante preconceituosas. Haverá é uma tendência para que isso se atenue, pelo menos de forma aparente porque, na génese, o preconceito generalizado ainda anda no ar. Caberá a quem – ou assim se ache – aceite e entenda as diferenças entre os cidadãos fazer a defesa do amor ao próximo como causa natural.
Vem isto a respeito de ter participado no III Fórum das Migrações – foi na passada semana, em Angra -, onde me coube um honroso convite para tentar focar – no âmbito das temáticas referidas - a comunicação como um veículo para esclarecer a sociedade. É essencial realçar o poder da comunicação e o enviesamento que a atual realidade mediática sofre por motivações políticas. E o contexto da imigração/emigração é o exemplo mais cabal que existe.
Considero até que acabaram a Emigração com E ou a Imigração com I. São tudo Migrações. Deslocações culturais, económicas e sociais. Mudanças imensas por opção ou por ou miséria. Sim, também há essa verdade. O certo é que todas são e integram comunidades.
Comunidades formadas por pessoas. E em todo o lado se ouve que o principal são as pessoas. Pelo que é preciso passar o foco para essas pessoas, que nos chegam ao pé de casa e que desconhecemos, que passam a fazer parte do nosso dia-a-dia, a integrar as nossas tradições, a ser também a nossa terra. Esse seria o cenário ideal. Que também acontece.
Defendo um Estado aberto, mas não ingénuo...como deveria ser toda a gente. Mas nunca o isolamento das comunidades. São assim precisas novas respostas para o desafio de um saldo positivo, também moral, entre o receber e o enviar para outras paragens. Pois estamos a falar de pessoas, e não de mercadorias.
Voltando à comunicação, mas não deixando de olhar as migrações, a realidade atual permite-nos uma interação em tempo quase-real com toda a parte. Pelo que não é sequer aceitável a deturpação que a informação recebe. Mas a verdade é que ela acontece, e influencia diretamente as atitudes dos cidadãos, as ações dos governantes, no fundo a toada diária de um país e de um povo.
Presente na sessão de abertura do citando evento, o Secretário de Estado Adjunto da Presidência e Imigração partilhou dados que são chocantes sobre a entrada de cidadãos estrangeiros no nosso país. Dados que mostram uma política atrapalhada, que aconteceu, agora mesmo, em Portugal, criando feridas que são - as tais - pessoas, e cujos curativos tiveram de ser imediatos. Porque em pouco tempo estragou-se muito, e só se espera que possa haver um retrocesso positivo. Se é que eles são possíveis...
Há um imenso trabalho feito nos últimos dois ou três anos, que associa o acolhimento e a justiça. E que também é real nos Açores, onde as várias comunidades de estrangeiros se acomodam, penso eu, com o gosto que estas ilhas transmitem. Mas nem tudo é um mar de rosas, e há o fantasma do preconceito, que se amplia no tempo, face também aos novos recursos tecnológicos e de socialização. Esse é um perigo imenso.Ainda hoje existe confusão entre emigração, imigração, acolhimento e portas abertas. E todos os dias vemos quem fomente essa confusão, semeando um caos inaceitável, que nem devemos promover à boca pequena. Por muito que isso até aconteça.
Temos todos é de fazer por embarcar o preconceito. Para bem longe…
