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PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

25.Out.23

Em defesa do Toiro Bravo

Foto Cronica 177DI OUT23 - Em defesa do Toiro Brav

Na passada semana foi novamente beliscada – pelo PAN, partido democraticamente eleito e, como tal, com direito às suas posições e projetos – a continuidade da Festa Brava nos Açores, mesmo se o episódio nem galgou as barreiras do Parlamento regional.

Pese embora o chumbo redondo que teve a iniciativa daquele partido político, é sempre tempo de aproveitarmos estas alturas para pensar na manutenção e no fortalecimento das nossas tradições. Mas fazendo-o de forma séria, não-populista e assente nas vontades do povo. Que tradições sem gente, s(er)ão apenas memórias.

Sempre que ouço falar sobre Tauromaquia, e sendo que há muito a temática central tem a ver com vontades políticas de cessar aquela atividade artística, e bem menos com as formas de a valorizar e manter, fico sempre com a sensação da falta de destaque dado ao elemento central de toda a ação: O toiro bravo.

De facto, é devida à existência desse fabuloso e nobre animal, porventura um dos mais belos da Criação, que nasceu a vontade dos homens em combatê-lo sob várias vertentes de arte, que os tempos guardaram como toureio, nas suas diferentes sortes.

Tudo isso faz parte de uma atividade, abrangente como poucas, imersa em princípios e significados, com diversas tendências e leituras, capaz de inspirar artistas, de catapultar vontades e, acima de tudo, de criar emoções. E essas, só existem porque existe o toiro bravo. Ele é o elo comum a todas essas condições, no redondel, na rua ou até nos pastos e na lezíria.

Mas voltemos à realidade taurina que se vive nestas ilhas, e que, efetivamente, encerrou em 2023 assistências quase inéditas – nas praças de toiros – e uma imensa participação – nas ruas e arraiais -, provando que se mantém como uma verdade vincada nos costumes das localidades que a acolhem mas, lá está, também despertando a curiosidade dos que nos visitam. Mesmo se, por vezes, há a tentação comercial de as esconder para turista-não-ver…

Há uns tempos largos, escrevi algo semelhante a “pior que um anti-taurino, é um mau aficionado”. E, se conheço vários anti-taurinos – cuja opinião e escolha, pois é disso que se trata, naturalmente respeito -, também me lembro assim de memória de muita gente, até ligada à Festa Brava, que não só a defende mal, como cria condições para que os múltiplos ataques que a mesma sofre ganhem fulgor.

Mas isso acontece em imensas áreas, pelo que também naquela emocionante e apaixonante arte deve reinar o equilíbrio, assim como o conhecimento, porque quem não sabe sobre o que fala dificilmente creditará algum avanço positivo ao assunto.

Também já opinei que, no dia em que a Tauromaquia se resumir a um contar de votos entre o “sim” e o “não”, também os partidos políticos se vergarão à vontade popular, se isso lhes trouxer reforço eleitoral e proximidade ao poder. Uma realidade que também é transversal, pelo que espero já não andar por cá nessa altura.

Em suma, e mais do que esgrimir argumentos a favor das Touradas, volto aqui a destacar o mote da Festa Brava, aquele que leva milhares de pessoas a abeirarem as paredes dos pastos ou as vedações das herdades, apenas para o apreciar. Uma vez mais, o toiro bravo. Esse sim, deve ser o centro da discussão, para que se possa facultar-lhe uma vida ainda mais regalada e digna, e para que cumpra o desígnio da sua existência com o máximo vigor.

A Festa Brava não está em risco premente nos Açores, embora o esteja noutras paragens. Mas é essencial que a tratemos com a devoção devida, primando pela qualidade e pelo ensino, firmando valores e afastando-a do puro mercantilismo. Porque nisso, o deve e o haver das nossas bonitas paragens ainda dão cartas, cabendo à afición manter tal nível…

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