Blogue: Entrevista "Diário Insular"
Foto: Francisco Veloso
Blogues mantêm verdadeiro espírito de opinião
O blogue Porto das Pipas completou este mês dez anos de existência. Para o seu autor, Miguel Sousa Azevedo, esta arma continua a fazer sentido: nos blogues ainda se faz opinião.
O Porto das Pipas completou este mês dez anos de existência. Como é que um blogue resiste a uma década? Como é que se mantêm os leitores interessados?
Os blogues estavam na moda no início do novo século, uma moda que demorou um pouco mais a chegar aos Açores - são como as crises -, mas que se instalou definitivamente a meio da década passada, quando a profusão de blogues era enorme. Há a destacar os blogues micaelenses "Foguetabraze", do Nuno Almeida e Sousa, e o "Ilhas", este com vários autores, que há muito ultrapassaram o milhão de visitas. Penso que os visitantes diários do "Porto das Pipas", que costumam andar entre as duas e as três centenas, em termos de acessos diretos - foram cerca de 650 mil em dez anos -, são quase todos pessoas que me conhecem, e que se identificam com o que vou publicando. Replico no blogue os meus gostos pessoais, sendo que os seus conteúdos viajam entre a atualidade, a cultura, o desporto, a música, a nossa terra e as nossas tradições, algumas fotografias e curiosidade avulsas. O nome Porto das Pipas não tem - hoje - qualquer ligação ao extermínio físico e visual a que foi sujeito o antigo porto comercial de Angra. Penso que ainda se justificará como uma evocação do que foi a entrada e saída de novos mundos e conhecimentos.
Na altura, em 2004, o que é que motivou a criação do Porto das Pipas?
Na verdade o blogue inicial foi criado por um amigo meu, o Miguel Bettencourt, que me enviou um email a dizer: "está criado, faz o que quiseres com ele". Porque nunca fui muito dado às descobertas tecnológicas, nem sabia aproveitar as valências da plataforma. Aliás, a dada altura, o portal do Sapo fez uma migração dos blogues para um novo sistema, e tive de pedir ajuda na conversão. No caso, ajudou-me a Rosa Silva, que tem um blogue que começou na mesma altura. A sua criação surgiu como complemento às crónicas semanais que eu escrevia no jornal "a UNIÃO" - e que agora parcialmente o "DI" vai publicando -, mas principalmente porque sempre precisei de um palco para as minhas opiniões e preferências. Em 2004, essa era a forma ideal de divulgá-las e partilhá-las, especialmente porque vivia no Porto e assim chegava de outra maneira à minha terra. Passados dez anos, concluo que mantenho um blogue, mas passei a ter duas terras. E que só as exorbitantes tarifas aéreas me impedem de uma ligação pessoal mais presente. Nos Açores de hoje, vivemos uma realidade social completamente seguidista e contida, dentro da qual tenho muitas dúvidas se vale a pena, efetivamente, ter opinião pessoal...
E durante este tempo o que é que mudou no que diz respeito aos conteúdos publicados no blogue?
Acima de tudo, penso que aprendi a escrever melhor com o passar dos anos e com essa dita exposição. Além de que uma pessoa a abeirar os 30 anos será, naturalmente, diferente de alguém que caminha para os 40. O facto de usar o espaço para me aproximar da Terceira, também serviu para depois aferir que isso se cultiva com outra vontade quando estamos longe. Regressar à Terceira, com a maturidade e a aprendizagem - mesmo que ténues - de quem viveu fora, faz com que até as dificuldades do dia-a-dia sejam vistas sob outros prismas. Em termos práticos, também deu para perceber que, estando longe, tudo que se faça é mais apreciado por cá, ou pelo menos apreciado de outra forma. Isto partindo do princípio que não será apenas o facto de ser assessor de imprensa do principal partido da oposição, desde 2007, a condicionar algumas presenças e/ou convites. Mas isso são contas de um outro rosário. Ainda esta semana, no lançamento de um livro sobre o 25 de abril nos Açores, ouvi lembrar o meu avô Fernando de Sousa, à altura o primeiro secretário do núcleo regional do PS. E sei que herdei dele esta crítica ansiosa...que tantas vezes me custa moderar.
No Porto das Pipas preocupa-se em publicar e em dar destaque a acontecimentos de cariz regional. Na sua opinião, os jornais locais/regionais deixam de lado, por vezes, temas que mereciam mais atenção? Pode um blogue substituir um jornal?
Há uns anos fizeram-me uma pergunta semelhante num programa da RTP/Açores dedicados aos blogues. Não penso que os blogues, ou sequer a imprensa digital, substituam de facto os jornais. Mas a realidade económica, e as várias opções governativas, asfixiaram de tal forma a comunicação social, que muita dela se limita a seguir a agenda política, saltitando depois entre o social, o cultural e o desportivo, ancorando muitas das suas visões nos ditos colaboradores ou comentadores, com cuja visão mais empírica as pessoas se acabam por identificar de outra maneira. Nos blogues de opinião que ainda subsistem, há esse cariz pessoal. Há o verdadeiro espírito de "opinion-maker", que cada vez mais é uma espécie rara, salvo quando se podem juntar bons honorários a essa capacidade natural.
Com o advento das redes sociais, continuam os blogues a fazer sentido? Até quando?
Completamente. Demorei apenas algumas semanas para perceber que os blogues não precisam de andar a reboque das redes sociais. Porque, pura e simplesmente, se podem servir delas como motor de partilha e divulgação. Numa frase perfeitamente contemporânea: qualquer "post" que esteja "linkado" numa rede social, acumula um maior número de "likes" com uma subida exponencial de "views"... os blogues continuam a fazer sentido pela sua polivalência e pelo simples fato de serem gratuitos.



