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PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

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miguel sousa azevedo - terceira - açores

As alcoviteiras

01.10.22, MSA

Foto Cronica 156DI SET22 - As alcoviteiras.jpg

A Alcoviteira – no caso, Brízida Vaz - foi uma personagem utilizada por Gil Vicente no Auto da Barca do Inferno para caricaturar a falsa religião que então (século XVI) seria praticada. Era uma espécie de parteira, que incentivava muitas raparigas e mulheres a seguirem os caminhos da prostituição.

Tratava-se, pois, de uma personagem-tipo, já que essencialmente representava um povo cheio de pecados, pleno de malícias, e praticando a tal falsa religião. A alcoviteira apresentava-se com voz elogiosa e usando uma linguagem popular. Recusava a entrada no Inferno, mas acusando-se a si própria, como se tudo o que trouxesse fossem as coisas mais naturais.

No fundo, juntando todos os pecados cometidos ao longo da vida. E se nem o Diabo nem o Anjo a acusavam, o facto é que ela se defendia, por não querer ir para o Inferno, dizendo que tinha casado muitas moças, que fora martirizada, que encaminhara muitas raparigas, pelo que até deveria rumar ao Paraíso.

Mas chega de história literária, até porque o Auto da Barca do Inferno me recorda horas enfadonhas do meu 9º ano de escolaridade. Regressemos à atualidade e vamos socorrer-nos de um dicionário: Aquela que alcovita, que faz mexericos ou intrigas, uma fofoqueira. E, de facto, uma mulher que tenta arranjar relacionamentos, agindo como mediadora em relações afetivas, e mais as ditas referências a prostíbulos e afins.

Fiquemo-nos pela definição mais básica, e que nem tem género. Pois, infelizmente, há pessoas alcoviteiras. Muitas. Elas ou eles. Mexeriqueiras, intriguistas, fofoqueiras. Que falam do que sabem e do que não sabem, que se alimentam da vida alheia como verdadeiros vampiros em pescoço de passagem, e que, enfim, até resumem a sua triste existência à prática dessas tão comuns ações.

As (pessoas) alcoviteiras raramente agem de boa fé ou com intenções nobres. Pelo contrário, quase todos os seus cometimentos revelam inveja, visam o enredo barato e, tendencialmente, mostram a vontade expressa de prejudicar terceiros. Em suma, e numa visão muito linear, despejam a sua infelicidade no tecer de redes ínfimas, que passam gerações, marcam localidades e quase identificam um povo.

O advento tecnológico, e principalmente o boom das redes sociais, fez com que o terreno de ação das pessoas alcoviteiras aumentasse de forma exponencial. Sendo que agora até podem agir virtualmente, protegidas pelo véu da fibra ótica, mas usando na mesma das suas manhas para engordarem com o dia-a-dia dos vizinhos, e por aí fora…

Mas nem tudo serão espinhos, e hoje até há uma alcoviteira no Instagram, que se intitula “influencer e embaixadora do comércio e da cultura de Portugal”, apresentando-se num apelo: “Quero contar as vossas histórias e saber todos os vossos segredos”. No caso, trata-se de uma manobra de publicidade, que até nem teve muito sucesso.

E também há uma fotógrafa, por acaso açoriana, mas esta apresenta produções com qualidade e apurado bom gosto. Desconheço a origem do uso da expressão “alcoviteira” para nome profissional, mas que é apelativo, pois lá isso é.

E até podia haver uma marca de roupas, de bebidas, de linhas para costura ou lãs de tricot, de tesouras e pentes, de temperos, de esfregonas, de espelhos ou de relógios. Surgiria certamente quem lhe alcovitasse a disseminação comercial…ou falasse mal dela!

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