Ainda o bom Carnaval

O interregno carnavalesco causado pela pandemia provocou saudades e apreensão, também para os nossos lados, afinal era uma incógnita a reação popular a uma paragem tão grande, aos (ainda) receios de ajuntamentos ou até à vontade de fazer coisas e realizar sonhos.
Deram com os burros na água os profetas da desgraça – ou, pronto, de um menor sucesso – para o Entrudo desta Terceira de Jesus, que realmente se voltou a transformar num imenso palco, onde danças e bailinhos dividiram horas com outras festas. Até a Tourada dos Estudantes teve novamente uma casa condigna, para apreciar os folguedos dos mais novos.
Aliás, o “meu” Carnaval começou bem antes disso, pois na sexta-feira à noite fomos 70 “Taroleiros” a “abrir” a contenda, desfilando Rua da Sé abaixo, depois de um barulhento e saboroso jantar, a confirmar que se passaram 20 anos de uma já-tradição, que não vai parar, pois marca também a vontade foliona de um grupo de amigos, que recordam a passagem da juventude, acolhendo com prazer elementos de outras idades.
Já na tarde do Domingo Gordo, atacou-me um misto de sensações, entre a nostalgia de lembrar os velhos tempos da Tourada dos Estudantes e o sorriso de ver que, nas novas gerações, ainda há quem acarinhe e leve em frente aquela rechonchuda tradição do Entrudo angrense. Mesmo com menos participantes, mesmo sem as três sortes da parte séria, mas com uma vivacidade genuína, coisa que vejo faltar a tantos jovens de agora. Ainda mais, criada pelas próprias mãos, trabalho e graça daqueles jovens. E com o complemento de prosseguirem a história desta terra. Não abrandem, que estão a orgulhar muita gente.
E que maravilha foi este ano voltar a levar o calor do nosso Carnaval aos ouvintes do Rádio Clube de Angra. Mostrando um berço de enormes artistas, de gente que tudo dá para nos estampar um sorriso no rosto. Estivemos quatro tardes e noites na Sociedade Filarmónica Rainha Santa Isabel das Doze Ribeiras, onde o acolhimento gentil e a amizade se juntaram a apresentações de excelência, de tanto deste povo que se pinta, canta, muda e reformula nos dias que antecedem a Quaresma. Música fantástica, assuntos acutilantes e a felicidade pelo regresso estavam no olhar de cada um. E, claro, os tais sorrisos, muitos sorrisos…
Já pela madrugada de terça-feira dentro, e durante os dias seguintes, estive a "atualizar-me" face a algumas danças e bailinhos que não apanhei nos salões. Revendo as suas atuações nas diversas plataformas. E acho incrível que alguém ouse atacar a generosidade imensa de quem nos faz gostar ainda mais da quadra do Rei Momo, pela partilha das suas graças, dedicação e arte.
Cito apenas uma frase retida do bailinho dos rapazes de Santa Bárbara, pela pena talentosa do Patrício Vieira: "Se a Terceira fosse uma planta, o Carnaval seria a flor". E como foi bom o Carnaval. Até pró ano!
