A nossa alma de Carnaval

Desde fevereiro de 2020 que não vivemos o Carnaval nesta alegre Terceira. Até parece mentira o facto de termos aguentado tanto tempo, aturando a maldita pandemia, sofrendo ao longe pela guerra e agora torneando em piada os males da inflação.
Escrever sobre a forma diversificada como as nossas gentes passam estes dias é, em si, uma folia pegada, até porque a memória nos ataca com episódios sem fim que, muitas vezes, relatam os melhores momentos da vida.
E depois há a graça acrescida de todos participarem. No caso das Danças e Bailinhos, a tratar dos salões e dos bares, a fazer roupas, a escrever assuntos, a alinhar pautas e canções, a tocar, a representar, assim como a rir e a aplaudir. Nos bailes trapalhões, a enfeitar salas, a escolher músicas, a preparar petiscos, a inventar fantasias e a pular os sons de Vera Cruz até ao amanhecer.
Há de tudo e, felizmente, tive sempre o gosto de conseguir conjugar as várias vertentes desta quadra do Rei Momo na nossa ilha redonda de sorrisos. Um pequeno acorde é capaz de despertar emoções para quem aguarda a subida ao palco dos heróis do teatro popular. Se o foguete confirma a entrada, o resto já sabemos que é de enlevo.
Porque também existe o carinho do passar de gerações, que tão bem se vai vendo no Carnaval Sénior, um exemplo de ação intergeracional, demonstrativa de como nestes ares há também família e aprendizagem pura, sem idades.
Mas no outro Carnaval, o dos bailes e assaltos, cada vez mais procurados, dá-se o engraçado fenómeno de rever pessoas que são mesmo destas andanças, que têm gosto em surpreender os amigos com os seus trajes e pinturas.
Num e noutro ambiente, aliás como nos restantes dias do ano, há também os chocos. Que nos salões só criticam e nunca acham piada a nada – daqueles que nem para comer e beber prestam, diz-se… -, quase estragando a festa aos restantes. Nas pistas de dança, garagens e salões, os chocos não se fantasiam, quase não acompanham a música, e levam o relógio no pulso, para o qual vão olhando, como se a alegria fosse para cronometrar.
Muito mais giras são as pessoas que nos surpreendem num ambiente de Carnaval, porque afinal até têm bom ritmo e gostam de rir, coisa que nos outros meses ocultaram. Ou então foi algum licor ou cerveja alheia que lhes saiu na lotaria. Para nosso bem.
O Carnaval é, por excelência, uma festa em que as pessoas – pelo menos assim deviam – se afastam de preconceitos e aborrecimentos. Na minha terra, a grande maioria dos cidadãos age assim, cada qual no seu papel e ocupação.
Até porque o assunto é mesmo diversão. E quem dela não gosta, é mesmo melhor ir dar uma voltinha para longe da nossa felicidade. Bem-vindo, Carnaval. Tínhamos a alma saudosa…

