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PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

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miguel sousa azevedo - terceira - açores

21.Fev.19

A bestialidade doméstica de Portugal

Foto Cronica 90DI FEV19 - A bestialidade doméstic

Confesso que a violência foi coisa que sempre me incomodou. Nas suas mais variadas aparências e sugestões. Em criança, nunca gostei de brincar com armas nem com bonecos de guerra. E dos poucos confrontos físicos de que me lembro, de longe se passaram por minha iniciativa ou incitação. Acho simplesmente que quem bate assume e assinala simplesmente a sua imensa fraqueza em não saber resolver as coisas de outra forma. E alargo o leque para quem berra, para quem fala alto, para quem apita na rua, para quem insulta por norma, e até para quem, no silêncio da maldade, armadilha a vida alheia, no que se designa por violência psicológica.

A sociedade portuguesa atual é um pântano de fuga às regras e de bloqueios à autoridade. E, no que toca à violência doméstica, os dados são aterradores, sendo que este início de 2019, se revela ainda pior do que todas as previsões. Porque a violência doméstica já faz parte do nosso dia a dia. E, da mesma forma que se criam programas e mais programas para debelá-la, é também a deterioração social a que calmamente assistimos que faz dela um braço armado dessa pobreza cívica. Num cenário de combate sem efeito, afinal, escapar incólume, enquanto as feridas exteriores vão sarando, tem sido a conclusão mais vista.

Há uns anos, chamei a polícia à conta de um berreiro na casa ao lado. Depois de confirmar que a mulher do casal chorava copiosamente, refugiada numa escada e de porta trancada por fora. Na rua e ao frio. Tinha levado e ainda voltou a levar mais. Os agentes demoraram cerca de meia hora a chegar. Bateram à porta, e o corajoso companheiro da agredida – um desportista profissional com bem mais uns 20 centímetros de altura que o agente – fez um ar espantado. À costumeira pergunta “está tudo bem?”, o agressor – pois era disso que se tratava – disse que sim. E ainda chamou a assustada companheira, que terá acenado em confirmação. A polícia abalou e os berros cessaram. Por uns dias. O casal acabou por mudar-se, e só espero que as denúncias posteriores tenham tido mais sucesso.

Em 50 dias de 2019 foram mortas 11 mulheres em Portugal por violência doméstica - ou lá como lhe queiram chamar -. Trata-se de um país com 10 milhões de habitantes. Já nem peço que as pessoas sejam honestas, limpas e educadas. Mas será que ninguém segura estas bestas?

81 A bestialidade doméstica de Portugal - DI 21FE

 

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