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PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

Garantir uma tradição... (crónica)

19.02.10, MSA

As meninas do cartaz - e a frase de abertura - do cortejo deste ano...

Foi com alguma apreensão que assisti ao desenrolar da Tourada dos Estudantes deste ano. Mesmo que à distância, e dando apenas a ajuda entendida, facilmente identifiquei uma ligação menos forte dos jovens de Angra com aquela estimada tradição local, numa realidade que retumbou num cortejo pouco participado e, infelizmente – dado que o clima foi novamente em partidas de Carnaval… -, numa praça com muito menos gente que o sequer necessário para pagar as contas. E isto se até a parte cómica da garraiada teve graça, e mesmo com a falta de cavaleiro as acções taurinas se prestaram a bons momentos. O texto nem vem a jeito de relatar mais uma edição de um acontecimento que está de mãos dadas com o Entrudo local, sendo que o velho burgo angrense vive a Tourada dos Estudantes há muito. Já agora, aproveito para referir que a sua longevidade ultrapassa em muito os 50 anos avançados recentemente numa crónica de jornal. Com efeito, terá sido na segunda década do século passado que os alunos do então Liceu Nacional de Angra começaram a contenda, estando por isso a tradição a caminhar para os noventa anos…bem mais que o “exigido” para que garanta o epíteto, portanto. Sem fazer história, é com alguma preocupação que se assiste a um afastamento da juventude angrense ao certame, sendo certo que os que organizam, participam e ajudam o fazem com a maior das boas vontades, só pecando pelo número escasso, o que não acontecia até há bem pouco. Nunca fui apologista de que “no meu tempo é que era bom”, pelo que sempre me irritou ouvir dizer isso da Tourada dos Estudantes, esquecendo-se os autores da oração que os tempos mudam, que as realidades se adaptam, que só assim as coisas andam. E até porque desses, pouca ou nenhuma ajuda aparecia – ou apareceu - para contrariar a perda de qualidade anunciada, que a meu ver nem aconteceu. Simplesmente as coisas mudam e, bem analisada a situação, já será de saudar a participação dos presentes, pois se há coisa que mudou foi a realidade estudantil em Angra. O concelho tem agora duas escolas ditas secundárias de grande dimensão, mais uma que delas se aproxima e ainda uma significativa quota de ensino profissional o que, logicamente, espalhou a juventude por vários pólos, cimentando um divórcio latente da escola com esta Tourada, coisa que já se arrastava há anos. O objectivo desta pequena reflexão – sem nenhuma forma de apelo aos jovens, que são livres de ocupar o tempo como bem entenderem… - é apenas recordar o princípio fulcral da Garraiada dos Estudantes de Angra, uma festa da juventude, onde o espírito taurino das nossas gentes sempre se uniu com a crença de criticar a sociedade e o mundo em tempos do Rei Momo, uma característica que a distingue de outras por esse Portugal fora, e que a tornou única e original, e como tal uma espécie em vias de extinção. Esse risco de perda é premente, e já este ano apenas uma boa vontade muito visível – contrariando até alguma inocência em determinadas opções… - permitiu que houvesse cortejo e brincadeira. Mesmo com São Pedro a passar a perna à “estudantada”. O meu alerta prende-se com as virtudes do certame, que não se coadunam com alguns tipos de apoios ou de direcção que o mesmo possa tomar. Numa altura em que a liberdade de expressão serve de mote para toda e qualquer discussão, que não se levante o pano para que uma Tourada dos Estudantes sem o seu predicado saia à rua. No dia em que ela for criação de mais uma associação juvenil, grupo etnográfico ou qualquer outro organismo oficializado e sedento de apoios e favores, está assinada a sua sentença final. A Tourada dos Estudantes tem lugar para existir e (ainda) razão de ser, mas que tal aconteça apenas pela vontade dos jovens, imbuídos de uma rebeldia saudável que se vai perdendo nos calendários, caso contrário, é dizer-lhe adeus.

 

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