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PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

29.Jan.10

"As Fajãs de São Jorge são locais de liberdade"

Atento e observador, o meu caro amigo João Monjardino...

João Monjardino, Arquitecto e amante da natureza.

 

Políticos e técnicos começam a considerar demasiado dispendioso manter as fajãs de S. Jorge habitáveis. Enfatizam também que as encostas estão cada vez mais perigosas. Teme que este discurso possa preparar o abandono humano dessas línguas de terra?
Parece-me ambíguo depois do dossier da Fajã do Calhau na Ponta Leste de São Miguel e das declarações sobre a abertura de uma estrada para a Fajã de João Dias no extremo Oeste da Costa Norte de São Jorge. Há, de facto, riscos associados a viver nos Açores e, particularmente, em Fajãs. É conhecida a periodicidade e natureza de derrocadas nestes locais que não são um fenómeno novo. Algumas dessas Fajãs são mesmo o resultado de grandes derrocadas. O bom senso deve prevalecer. Se este discurso serve para desencorajar a pressão futura sobre as Fajãs pode ser útil. Evita fantasias urbanísticas futuras e valoriza imenso o património arquitectónico existente.
 Como surfista e amante da natureza, o que representam as fajãs de S. Jorge para si?
Para além da estafada definição “ilha dentro de uma ilha”, são um local de liberdade e redescoberta interior ou da Natureza crua. Há algo de terapêutico na ambiência das Fajãs. Tal como nos vales Suíços, onde as mortes anuais por avalanches são uma certeza e não um mero risco, há uma presença indubitável das forças da Natureza que produz romarias de visitantes. Sente-se e respira-se o mundo do apelo físico. Sente-se o apetite verdadeiro, a sede é mesmo sede e os sonos são profundos, fruto do cansaço físico genuíno. Voltando às Fajãs, numa mera semana e de Verão consegue-se um vislumbre das dificuldades sentidas pelos primeiros habitantes. Com o mar e estreitas vielas por primeira companhia houve que ser muito prático, parco e sintético nas decisões diárias para sobreviver. Algo que nos faz muita falta nos dias de hoje, nem que seja para valorizarmos o conforto em que vivemos.
 O que se perde em termos culturais e em termos de património natural e construído, se as fajãs forem abandonadas?
Para quem tem hábitos de consulta de internet nada melhor que ir a www.youtube.com e fazer uma procura do programa “No Reservations” do canal Travel HD. Sugiro que vejam a parte 5/5 onde poderão ver as Fajãs pelos olhos de um entusiasta destas ambiências que possuem uma grande diferença de muito produto turístico: estas são genuínas.
 Parece-lhe que será possível por via administrativa decretar o abandono das fajãs, ou o povo de S. Jorge e os amantes daquela natureza serão suficientemente resistentes?
Por via administrativa pode pretender-se fazer tudo. Da pretensão à execução efectiva no terreno mora a boa legislação e só essa. Inclino-me mais para achar que o discurso em causa é de carácter pedagógico e uma chamada de atenção às populações para questões de razão, disciplina e segurança futuras. Estas são coisas a que, como Povo, somos um bocado avessos. É óbvio que as avalanches da Suíça e as derrocadas das Fajãs continuarão com o ritmo marcado pela Natureza, essa grande legisladora. As suas consequências podem ser geridas dentro de um certo limite.
 

 

in "Diário Insular".

 

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