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PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

01.Out.08

Vamos "imbiora"!... (crónica)

O Luís e a filha Maria, cantando temas de "Empty Space"...

 

(na passada quinta-feira escrevi neste espaço – onde diariamente vou dando largas à necessidade de expandir ideias… - o seguinte texto, que desde logo pensei fosse ter seguimento…)

Amanhã à noite o Auditório do Ramo Grande recebe um acontecimento de luxo no que à música açoriana diz respeito.
Luís Gil Bettencourt, um filho da terra e um músico de eleição, responsável maior pelo “boom” qualitativo que a vivência musical desta ilha teve nos últimos vinte e tal anos, vai juntar amigos e traçar uma retrospectiva, “dentro do possível”, pelo que me disse, - acrescentando que “pretendia era fazer assim uma brincadeira com o pessoal todo…” -, da sua já longa carreira. Embora ainda hoje não assuma tê-la…
A crer nas suas palavras (D.I. revista do passado dia 14) há um claro lamento pelo actual estado das coisas, que eu interpreto pessoalmente como uma decepção na capacidade das pessoas se reinventarem por estas bandas, sendo tão abertas a elogiar os de fora, como fechadas a renovar o seu próprio “guarda-roupa”, enquanto miram – sob a capa eterna do ilhéu melancólico…- o próprio umbigo.
Já nem tenho a certeza das primeiras vezes que falei com o Luís, grande amigo do meu Tio António – possivelmente a pessoa de família com quem melhor me entendo nestas coisas dos sentidos e criações… -, mas recordo uma viagem às Flores, com o seu “Cantinho da Terceira”, onde tive o prazer de conhecer um conjunto de pessoas, liderados naturalmente e sem ofensas por ele mesmo, que me permitiram – também – passar a olhar algumas coisas sob outros prismas, sendo que o simples artefacto de criar e partilhar foi uma delas. Mais do que a faceta conhecida de músico e de mentor de diversas manifestações culturais desta(s) nossa(s) terra(s), penso sempre que o Luís se desgostou com a aceitação “de pé atrás” com que muitos brindaram a lufada de ar fresco que, em plena década de 80 e com estes Açores em mudanças e desvios, então trazia dos “States”. Assim como muita gente nunca entendeu o seu espírito triunfalista e empreendedor como uma chama acesa em prol de uma causa, e não como bandeira de vaidade ou mau feitio (coisa que ele até tem…). Em termos musicais propriamente dito, e referindo que só falo sob a perspectiva do meu gosto e do que sinto a presenciar as coisas, apenas adianto que conheço pouca gente que “respire” a sua arte como o Luís o faz. Quer seja num Auditório sumptuoso e com grandes meios técnicos, quer seja numa pequena festa organizada por amor à música, quer seja numa reunião de café/bar/pub das nossas memórias, onde toca sempre a roçar o raiar do sol, como se daquela dose de notas e acordes lhe dependesse o dia seguinte. E, se calhar, depende mesmo. Pelo que não vamos faltar à “retrospectiva”. Um abraço, Luís, e parabéns pela carreira…ou-como-lhe-queiras-chamar.

(Já depois de uma agradável noite, em boa(s) companhia(s) e com um ambiente musical à flor da pele, era inevitável “completar” a mão…)

Sala cheia, na passada sexta-feira, para os lados do Ramo Grande. O motivo era comum a todos e consistia em ver, numa sala que muito lhe diz ao coração, Luís Bettencourt traçando o rumo de muitos anos de devoção e entrega à música, no “tal” género de carreira que insiste em não ter tido, mas que toda aquela gente esteve lá a confirmar. A entrada em cena, com brinde colectivo e tudo, rumou a uma passagem por temas que iniciaram (nos “Sombras”) Luís Bettencourt no mundo dos palcos e concertos, virando-se depois o espectáculo para várias composições em que a versatilidade do (também) autor esteve bem patente, salientando-se a interpretação, juntamente com a sua talentosa filha Maria, de músicas do álbum “Empty Space” (felizmente reeditado e agora disponível em CD), gravado a meio da década de oitenta com a orquestra da Gulbenkian, e depois do regresso do Estado Unidos. Mesmo faltando o delicioso “Searching”, que bom foi ouvir o mítico “Dreams” (quem não se lembra do clip à beira-mar e água dentro?…) que a plateia aplaudiu aos primeiros acordes. Interessante o dueto com Ilídio Gomes e depois a fulgurante actuação com o “mestre” Carlinhos Medeiros, a recordar os tempos saudosos do “Cantinho da Terceira”. Sintomática a entrega de lembranças aos “sonoplastas” de outros tempos e sempre uma interacção viva e franca do músico com o seu público, os seus amigos, as testemunhas presentes de que a vida que levou, em acordes e discórdias, em arranjos e projectos, está no coração de quem bateu palmas com vontade de ouvir ainda mais. Como depois permitiu, em mais uma portentosa actuação com a “Ynot Band”, sem dúvida um grupo de talentos firmados, onde a voz de Tony Silveira faz lembrar outras paragens musicais. Em suma foi uma noite onde as notas fluíram e a cumplicidade do Luís com todos nós foi real. Como real é esta obra que vai deixando em plena execução de difíceis passagens de guitarra…Bem hajas!