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PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

01.Mar.06

Reportagem Revista DI-Domingo (26/02/2005).

Cómicos à solta


por: Hélio Vieira


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O cortejo e a tourada dos estudantes continuam a marcar o Carnaval terceirense. Sucessivas gerações de estudantes têm assegurado essa peculiar tradição carnavalesca, cujas origens não são bem conhecidas e que resulta de uma mistura de boa disposição com tauromaquia. No Domingo Gordo, lá estarão eles outra vez, os jovens estudantes com a sua irreverência, descendo a rua da Sé com muita sátira, crítica social e algum “aranhão” – uma bebida amarelada que tem efeitos de “tónico de coragem” para que tem que saltar mais tarde para a arena da Praça de Touros da Ilha Terceira.

O programa de televisão “Fiel e Infiel”, os lavradores do “Fala quem sabe”, as lojas chinesas, a RTP-São Miguel e as reformas são os principais assuntos que vão merecer a sátira dos estudantes da Escola Jerónimo Emiliano de Andrade de Angra do Heroísmo durante o cortejo e tourada que se realiza no Domingo Gordo.
Cerca de meia centena de cómicos vão dar largas à sua irreverência para provocar risos no cortejo que vai descer a rua da Sé e na Praça de Touros da Ilha Terceira quando chegar a altura da garraiada.
Para além dos “cómicos” que irão andar à solta na praça, participam este ano na tourada os jovens cavaleiros João Pamplona e Rui Lopes.
Com o tema genérico “Angra e Praia em harmonia, festa noite e dia”, o cartaz dá o mote para o que se espera para o Domingo de Carnaval: “Muitas pessoas não gostam de nós/E no Carnaval somos deslumbrantes/Vão sempre ouvir a nossa voz/Viva a Toirada dos Estudantes”.
Mas para que essa animação seja possível, todos os anos é nomeada uma comissão com o objectivo de dar continuidade à tradição carnavalesca da Terceira.
Pedro Santos, 16 anos de idade, assumiu a responsabilidade de liderar a jovem equipa de estudantes que este ano teve a seu cargo a organização do cortejo e da garraiada do Domingo Gordo.
O trabalho da Comissão Organizadora da Tourada de Estudantes (C.O.T.E.) começa no mês de Outubro, pouco tempo após do início de mais um ano lectivo.
Depois de encerradas as inscrições para quem quer participar no cortejo e tourada é tempo de começar a pensar nos temas que vão servir de base aos carros e “construções” a colocar na praça para então se avançar com todas as tarefas necessárias para que esteja tudo pronto no Domingo Gordo.
Cerca de quinze dias antes do início do Carnaval o trabalho intensifica-se e com o recurso a papel de cenário, pincéis e madeira vai-se dando forma às “construções”.
Entretanto, muitos dos inscritos já foram excluídos devido aos “cortes” que ocorrem devido ao absentismo no que se refere à execução das tarefas que são necessárias realizar por todos para que o cortejo e a tourada possam decorrer de acordo com o planeado.
A contagem decrescente começa com a tenta que se realiza quinze dias antes, depois vem a volta à ilha para anunciar a tourada e distribuir o programa na semana seguinte e, finalmente, o dia do cortejo e da tourada.
Apesar de ter havido nos últimos anos maior entusiasmo para continuar com a tradição da tourada dos estudantes não se tem registado da parte de comunidade grande interesse em apoiar a iniciativa.
“Há cada vez menos apoios para a tourada. As pessoas pensam que isto é muito fácil de fazer mas não é verdade, porque temos que enfrentar situações complicadas uma vez que é preciso pagar o aluguer da praça, pagar as licenças e outras despesas”, refere Pedro Santos.
No entanto, o grupo de jovens estudantes que nos últimos dois anos assumiu a tarefa de organizar o cortejo e a tourada quer manter a tradição de nomear entre os actuais membros da do C.O.T.E. o próximo presidente.
Por outro lado, Pedro Santos considera que a presença de público na praça é fundamental para dar maior motivação a quem participa e também porque “a receita é muito importante para pagar as contas”.

TRADIÇÃO
Embora não existam dados rigorosos sobre a origem da tourada dos estudantes, tudo indica que o evento carnavalesco terá sido organizado, pela primeira vez, pelos alunos do Liceu de Angra do Heroísmo, no final da década de 20 do século passado.
Durante o tempo da ditadura, os “profissionais do estudo” entraram muitas vezes no jogo do “gato e do rato” com a censura para poderem dizer muitas verdades através do riso.
É que a “língua afiada” dos estudantes não se fazia notar apenas no Domingo Gordo.
A temível “W.C.”, uma espécie de “rádio pirata” que emitia apenas para um auditório circunscrito à rua da Sé através de altifalantes, não poupava quem andava no vai e vem da rua principal da cidade com recados do género: “E lá vai a menina que…”
Os primeiros cortejos saíram das antigas instalações do Liceu de Angra, no Convento de São Francisco. O percurso era feito de forma inversa ao longo da rua da Sé, passando o Alto da Covas em direcção à extinta Praça de Touros de São João.
Com o passar dos anos, o cortejo e a tourada dos estudantes foi ganhando peso no Carnaval de Angra do Heroísmo, até porque a cidade manteve uma atitude de distanciamento até há poucos anos em relação às danças que surgiam nas comunidade rurais da Terceira.
Com a ajuda do “Aranhão”, uma bebida de cor amarelada, que muitos acreditam que provoca melhor efeito que certos analgésicos, os estudantes do Liceu de Angra estavam sempre prontos para uma espécie de ajuste de contas com a pacata e fechada sociedade angrense no Domingo Gordo.
Segundo Pedro Alberto Leal, que participou em três touradas no período de 1963-1965, o auge da contribuição dos estudantes para o Carnaval terceirense ocorreu durante as décadas de 50 e 60 do século passado.
“Nessa altura a comissão era constituída por seis elementos, sendo cinco do 7º ano e um do 6º ano, que era nomeado presidente para o ano seguinte. Era dada preferência para a tourada a quem estava no último ano do liceu, não era coisa para crianças de 13 e 14 anos como vemos hoje”, refere.
Coleccionador de cartazes, apreciador e colaborador da tourada dos estudantes durante vários anos, Pedro Alberto Leal também não vê com bons olhos a forma algo caótica como decorre agora o cortejo e a tourada e estabelece um paralelo entre o que se faz hoje com aquilo que acontecia há cerca de quarenta anos: “Quem está na assistência no final do cortejo apenas pode observar um amontoado de papel e madeira porque eles partem tudo enquanto descem a rua da Sé. No meu tempo não ia toda a gente ao monte para o redondel da praça, até porque havia menos espaço. Quem ia lá para dentro sabia que tinha um número para fazer. As coisas eram organizadas como deve ser”, adianta.

MOMENTOS ÚNICOS
Diz quem já passou pela experiência, que a tourada de estudantes é também um momento de partilha de momentos inesquecíveis que perduram para além de uma ou outra nódoa negra.
Miguel Azevedo participou dez anos seguidos (entre 1993 e 2003) e guarda na memória histórias que ainda hoje fazem rir quem nelas participou, como aquela em que foi necessário arranjar uns burros “emprestados” para o cortejo de 1995. Um dos burros teve direito a sapatos para fazer o percurso pela rua da Sé. Quando o cortejo chegou à Praça Velha lá estava o dono dos burros acompanhado com uma mulher polícia que ordenou a devolução dos animais. Um dos “cómicos” que entregou o animal ao seu proprietário saiu-se com esta: “O senhor pode levar o burro mas os sapatos ficam porque são meus”.
Jornalista e responsável pelo blog Porto das Pipas, Miguel Azevedo tem ainda bem presente na memória as vivências do convívio proporcionado pela tourada dos estudantes.
“Da experiência que é entrar, e conhecer em pormenor, o mundo e as histórias da nossa garraiada, guardo um lugar especial na minha vida. As amizades ganhas são para sempre, as aventuras vividas nunca se esquecem, as marcas de uma cornada mais dura ficam, por vezes, como a recordação de uma coisa que se quer sentir mesmo para além do tempo”, afirma.
Embora afastado da adrenalina que paira no ar nesta altura no local onde ainda se prepara mais um desfile e a tourada (há sempre que fazer até ao último minuto antes de tudo começar), Miguel Azevedo assegura que a tradição está entregue em boas mãos: “O que posso dizer é que senti, há dias no final da tenta, que aqueles rapazes e raparigas tinham a mesma alegria e orgulho que por várias vezes recordo com prazer”
No entanto, lembra que a tourada dos estudantes esteve em risco de acabar em 2002.
“Se não fosse a grande vontade de elementos mais antigos e algum sangue novo, tinha-se mesmo interrompido uma tradição que deve caminhar para o século de existência. Mesmo com todas as alternativas que os jovens de hoje têm para ocupar o tempo, acredito que a tourada dos estudantes não vai morrer. E que a minha geração nunca vai cair no erro triste de dizer - “No meu tempo é que era bom". A tourada é sempre boa”, conclui.

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