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PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

26.Mai.06

Memória e amizade…com saudade. (crónica)

As datas têm o valor que lhes queiramos dar e, muito provavelmente, é no dia que se comemora ou recorda alguma coisa que menos se sentirá sobre ela. Não fosse o facto de se proporcionarem homenagens ou outras formas de relembrarmos alguém ou um acontecimento. Falar ou escrever sobre as pessoas que já não estão entre nós tem também um sabor amargo e, quase como obrigação, sentimo-nos inclinados a apenas versar as suas qualidades e as atitudes de valor. Mas o que fazer quando esse alguém tinha um coração do tamanho do mundo e uma amizade para dar e vender ao longo dos anos? Apenas isso, reter as lágrimas e relembrar as imagens e o património construído pela vida. Entre o qual se contam as horas (sempre poucas…) de convívio e os episódios marcantes ou que puxem um sorriso.
O T.A.C.-Terceira Automóvel Clube comemora hoje 31 anos de existência. Junto com essa data passa o 52º aniversário de um dos seus presidentes mais lembrados: O Carlos Soares. O facto por si só seria digno de nota, dado que Presidente e clube partilharam (de 1982 a 1986) uma data festiva. Mas este ano o dia aviva-nos a memória e relembra-nos que o Soares (foi sempre assim que o chamei…) nos deixou faz agora quase meio ano. E deixou-nos de uma forma tão rápida e inesperada que, tal como a ânsia de amizade e vida que ele tinha, muitos nem foram a tempo de se despedir. De lhe dar um abraço sentido. De lhe dizer que, por tudo, tinha valido a pena…
O Carlos Soares foi mais um da já longa galeria de presidentes que teve o clube mas a ele, e inserido no grupo que sempre soube representar, se deve uma quota parte da construção da sede da colectividade, bem como da posterior ampliação, cerca de uma década depois. Mas será talvez o que mais carisma fez passar pela forma como desempenhou o cargo. Não tivesse sido tão sentida a forma como também o abandonou. Muito por que os tempos eram outros. As idades e as solicitações de uma década de 80, onde custava demais fazer fosse o que fosse nesta terra, serão marcos para um conjunto grande de homens e mulheres que lutaram pela sua paixão pelos automóveis. E, como em tantos outros clubes, pela vontade de partilharem uma mesma paixão com o grande público.
Não podia deixar de, dedicando estas simples linhas ao meu saudoso amigo, relembrar alguns dos episódios que, amiúde, me fazem recordá-lo com nostalgia. Desde o T.A.C. que andou com a casa “às costas”, e que se resumia a um conjunto de capas e pastas que visavam levantar organizações, até aos concertos dos meus amigos “Os Sobredotados” onde, já noutra fase, os olhos do Soares brilharam pela prestação do seu filho Miguel. Lembro-me do único rali que ele disputou, que foi o último em que participou o meu Pai (o 1º Rali Sical, em Abril de 1982), pois desistiram na 2ª etapa e, dizia sempre o então estreante navegador: “…logo agora que eu me estava a entender com as notas…”. A ele também se deverá o início do ciclo “Sical” nos ralis da Terceira, pois acolheu e exaltou um novo patrocinador, incentivando a continuidade da parceria. Quem não se recorda da Conferência de Imprensa do Ilha Lilás’86 (patrocinado pelos Chocolates Imperial), realizada numa Câmara Frigorífica da “Fripraia” em jeito de grande encenação. Ou do Circuito “Galp” das Sanjoaninas desse mesmo ano, um evento inovador e que também teve o seu “dedo”. Não deixo de ter presente a faceta de artista, representando com prazer- de preferência em registo cómico-, que mais não fosse uma singela fantasia de Carnaval. Aliás foi com um espírito festivo notório que o Soares contribuiu também para o clube em causa ou para outras instituições. Gostava de pôr as festas de pé e de as organizar a preceito, dividindo-as com quem aparecesse. E o simples gesto de atenção que tivesse, era sentido ou não existiria.
Ainda há uns dias me ligou o meu caro amigo José Silva, da R.T.P., que me perguntou o seguinte: “Ó Miguel, reparei que me chama sempre José Francisco, o que pouca gente faz. Porque é?”. Apenas lhe respondi: “Sabes…na casa do Soares era assim que te chamavam”. E ficou entendida a questão, sendo que ouvi do outro lado: “…pois, o meu rico amigo…”.
O nosso rico amigo Carlos Soares. Que relembramos com a velocidade de uma vida que não nos dá tempo para fazer tudo que ambicionamos. Por realizar ficou o projecto de juntar de novo a dupla número 8 do 1º “Sical” para uma participação esporádica noutro rali, não ficando por fazer a homenagem devida e de vontade que o clube dedica ao seu antigo dirigente. A sala de visitas do T.A.C. vai passar a ter o seu nome e a sua presença em alma da sua pessoa far-se-á assim de forma efectiva. E foi se calhar em nome de muitos sócios anónimos, de um clube e da vida, que me atrevi hoje a alinhar estas palavras com saudade. Saudade do tal tempo que não volta. E de um amigo de olhar terno e abraço sincero. Que, espero, esteja em Paz.

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