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PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

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miguel sousa azevedo - terceira - açores

02.Fev.16

Entrevista Tourada dos Estudantes (DI)

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Miguel Azevedo participou 10 vezes na Tourada dos Estudantes e vê com tristeza a interrupção da tradição quase centenária. Para além do cortejo com crítica social, realça o papel do festival tauromáquico na renovação dos toureiros locais.

 

Este ano, não se realiza, em Angra do Heroísmo, a Tourada dos Estudantes, uma tradição de Carnaval com quase um século. Na sua opinião, o que provocou este desfecho? Os alunos perderam o interesse? 

O que se verificou este ano foi, essencialmente, a falta de interesse dos estudantes. Podem apontar-se várias razões para que a Tourada dos Estudantes, na sua totalidade, não se realize, mas quando houve apenas 15 inscritos para a mesma poderia estar tudo dito. Recordo que, há não muitos anos, esse número ultrapassava a centena, e havia os "cortes" para selecionar os 60/70 que fariam parte do cortejo e da garraiada. Acho que não se deve dramatizar a situação, mas sim tirar as devidas ilações da mesma. Até porque se fez a Tenta, se deu a Volta à Ilha e, com a ajuda de alguns - infelizmente sempre os mesmos -, até haverá no sábado uma "brincadeira" na Praça de Toiros Ilha Terceira, que evocará a Tourada. Mas a verdade é que, nos últimos anos, as bancadas têm tido sempre as mesmas pessoas - e poucas -, mesmo se o cortejo vinha mantendo um nível engraçado. Acredito é que esta seja apenas uma crise passageira, e que em 2017 haja novamente a festa em todo o seu esplendor.

Uma das alunas que tentava organizar este ano a Tourada dos Estudantes disse a DI que os pais estavam renitentes em deixar os filhos participar. Esta tradição ganhou má imagem nos últimos anos?

Não vejo as coisas assim. Ou então a memória dos pais da nossa terra está muito fraca. Não há casa, especialmente em Angra, onde não haja uma recordação da Tourada dos Estudantes. Ela foi também a porta de entrada no mundo taurino para muitos jovens ao longo de décadas, para lá da sua vertente crítica e cómica, que sei ser, ainda hoje, motivo de tantas e tantas histórias. Claro que houve excessos, e hoje há uma data de problemáticas com os mais jovens, às quais nem se ligava anteriormente. Mas não acredito que o afastamento seja por via dos pais, nem que a Tourada dos Estudantes tenha má imagem. Espero que a vontade da Mariana e dos seus amigos prevaleça nestas novas gerações.

Destaque Entrevista DI Tourada dos Estudantes 2fev

Acredita que ainda será possível recuperar a Tourada dos Estudantes?

Penso que sim. Tenho uma opinião muito própria sobre vários fenómenos da nossa terra, pois a inconstância das gentes ganha terreno de uma forma preocupante. Mas acho que é uma tradição que vai ressurgir, depois desta "escorregadela". Para isso, é preciso recuperar a parte séria da Tourada, com cavaleiro, toureio apeado e as sempre presentes pegas, porque a Tourada dos Estudantes era um pequeno festival, mas com todas as cortesias, e lá nasceram quase todos os nomes grandes da nossa tauromaquia. Ou então, toda a pedagogia criada em torno da Festa Brava falhou no essencial, porque os artistas não se renovaram, com excepção dos forcados. Esse é um ponto essencial. O resto tem a ver com a vontade e a irreverência dos estudantes. Têm de ser eles a perceber que vão acabar com algo que sobreviveu a todo o Estado Novo…esperando que a maioria saiba o que isso foi.

A Tourada dos Estudantes tinha uma vertente de crítica social, com o cortejo realizado na Rua da Sé. O que é que se perde com o seu fim?

Pode perder-se um momento único em cada Carnaval, pois o cortejo espelha vários momentos e factos da nossa terra e da atualidade política e social. Há factos da nossa História que estão relatados nas memórias da Tourada dos Estudantes. A minha dúvida, e estendo isso a outros campos, é se a nossa sociedade ainda sabe criticar. Ou se apenas o faz porque sim, porque faz parte, mas já sem crença de que, efetivamente, a crítica possa mudar alguma coisa. Há uma censura silenciosa presente nas nossas vidas, mas já estou a fugir da temática, e o Entrudo é para sorrir.

A perda deste momento de análise crítica do que se passa na Terceira será um espelho da sociedade atual, que cada vez mais opta por não se pronunciar? 

Como referi, não acredito que a Tourada dos Estudantes fique por aqui, e ficaria muito triste se assim acontecesse. Mas temos de ser realistas e dar lugar a quem deve fazer as coisas, se as quiser fazer. Os estudantes e os jovens desta terra têm nas mãos uma tradição quase centenária, que deviam querer manter e acarinhar. Não podem ser os pais, as câmaras ou as empresas a suportar as coisas e a fazer-lhes a "papinha" toda. A iniciativa tem de ser deles, e o que não faltam são pessoas que podem ajudar. Discordo que a solução passe por formar mais uma associação para viver de dinheiros públicos, pois isso é o mesmo que assinar a sentença de morte do que foi a Tourada dos Estudantes desde os anos 20 do século passado. Não queiramos sistematizar o que nunca fez parte de um sistema. Sou contra isso.

Participou várias vezes na Tourada dos Estudantes. Que memórias guarda desses tempos?

Participei dez vezes, diretamente, na Tourada dos Estudantes, Fiz parte da sua comissão organizadora em 1997, e durante vários outros anos ajudei as várias comissões da melhor forma que soube. E já escrevi muito sobre esta tradição. Existem imensas histórias para contar, mas houve uma coisa que aprendi com toda a experiência num evento tão popular e intenso, que é o prazer de partilhar as recordações de uma forma saudável. Tal como o gosto de ficarmos com o nosso nome ligado a algo que fez rir, que criou bons momentos, que solidificou amizades, fez surgir namoros e até casamentos, que marcou decididamente a nossa adolescência e mesmo a idade adulta. Penso que o lado bom das tradições é esse mesmo, e traduz-se no fomento do amor às causas. O resto, tudo que seja forçado e impingido, ou soa a balelas ou vem de quem tem muita necessidade de aparecer. Mesmo se no Carnaval, ninguém leva a mal. Viva a Tourada dos Estudantes!

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