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PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

26.Jan.12

Em terra de Festa Brava…

Jose Tomas, Maestro de emoções...

Foto: Esteban Pérez Abión

 

Muito se tem escrito e discutido sobre a realização do 2º Fórum Mundial da Cultura Taurina, mormente pelos apoios públicos que o mesmo encerra que, para alguns detractores da iniciativa, não se justificam, pois – advogam – a tauromaquia não é uma tradição cultural nossa, e assim o certame, que se repetirá três anos após o sucesso da edição de estreia, se calhar nem deveria existir. Pois eu acho que deve existir, e desde logo saúdo quem melindrosamente o foi criando, nos bastidores de uma vida pública onde as opiniões valem o que valem e onde, naturalmente, há aproveitamentos políticos, sociais, económicos. Tal qual como num largo rol de outras actividades…só que o mundo dos toiros é peculiar. Porque nos mexe com a alma, porque nos faz palpitar e ansiar, porque agrupa um leque de espectáculos variados, que se enraizaram entre nós, terceirenses, mais ou menos aficionados, menos ou mais conhecedores, com mais ou menos queda para fazer comentários em castelhano de barreira. Nos últimos anos escrevi amiúde sobre a arte taurina, focando-a de diferentes pontos, mas sempre com o prumo certo de qual seria a minha interpretação de um momento, a minha referência pessoal a uma figura maior, a minha nostalgia em força face a alguma recordação. Sem mais brio que um qualquer defensor de uma qualquer causa, a beleza da Festa Brava – escrita em maiúsculas, para que se destaque… - perfaz um conjunto de imagens, de jogos de cores, de aromas, de prenúncios e de entendimentos, que a colocam como um dos mais complexos fluxos de cultura ao nosso alcance. Não só pela ligação real do campo ao burgo, no caso das corridas de praça, como na nossa pitoresca tourada à corda, onde cada uma das muitas jornadas serve de poiso para namoro, de banco para negócio, de mão dada para amizades…

Embora sem poder participar na totalidade dos trabalhos programados para estes três dias, realço a lucidez de dedicá-los à comunicação no meio taurino, numa jogada clara de fazer melhor pela divulgação e pelo entendimento geral em torno de um fenómeno único. Que, infelizmente, muitos ignoram e que, igualmente, outros tantos vulgarizam dada a parca habilidade para o saber defender. Recordo ainda algumas intervenções de vulto no certame de 2009, que segui quase do fio à meada, tendo retirado ensinamentos de palavras sábias como as de Francisco Moita Flores, autarca e escritor, ao lembrar que a festa taurina identifica as pessoas e os lugares, entre várias tiradas que retive e que motivaram calorosos aplausos; o momento alto da conferência de Paco Aguado sobre o toureio na cultura, afirmando que, em praça, o processo da criação é invertido, com o toiro, o artista e, no final, o diálogo técnico e a inspiração; lembro a excelente comunicação do Prof. João Pedro Barreiros – que por estes dias pôs o dedo na ferida a quem o quis ler… -, com conhecimento científico a deitar por terra críticas infundadas; ou mesmo os filósofos Victor Goméz Pin e a referência Francis Wolff, que encerraram a função sem a vertente prática da festa lhes passar pelo discurso, mas exalando aficion em intervenções profundas, que foram valioso contributo para um documento final, que muito honrou os presentes. Alguns deles conhecedores do meio, outros apaixonados do bem-estar, outros ainda – como em tantas outras coisas – que ali estavam, e voltarão a estar. Numa má interpretação sobre o que é a partilha do conhecimento – agora tão em voga nestes Açores… -, houve quem quisesse boicotar pela calada o fórum que hoje se inicia. E lá vieram de novo à baila os políticos, como se as tradições se legislassem em folha timbrada, como se tivessem selo oficial, como se fosse possível proibir vontades e direitos por contrariedade. A errónea ligação de um evento destes ao despertar da introdução da sorte de varas ou das corridas integrais no plano local foi uma habilidade. Mas que não colou. A mim nunca me leram a defesa de uma ou de outra acção, e dificilmente o poderão ler. Mas sou tão ou mais aficionado, tão ou mais apaixonado pelo que se sente no voltear de um capote, do que outro espectador com mais milhas de viagens e mais cadeiras em Sevilha ou Madrid.

A arte, verdadeira e abnegada, interpreta-se e traduz-se. Mesmo se, de facto, há quem entenda apenas de estrangeirismos…

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