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PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

18.Jan.12

A ilha Grande...

A montanha...ontem ao fim da tarde

Por incrível que pareça já tinha ultrapassado os trinta anos de idade na primeira vez que vim ao Pico, ilha onde, por estes dias, me encontro em trabalho e cujo ambiente e beleza me encantam…desde essa tardia visita de estreia. Mais incrível é que nunca tenha abeirado os extremos do arquipélago (Santa Maria e Corvo), mas isso são malhas de outro novelo, e a manta que esta noite me aquecerá foi tecida de pedra negra, ordenada, cuidada, e que serve de embalo ao ponto mais alto de Portugal, a montanha elegante que se ergue do mar e que dá nome a esta ilha e a toda esta paisagem. Com a sua cultura da vinha classificada como património da humanidade, confesso que é num certo bom gosto generalizado que esta terra me fala ao peito, e asseguro que não tenho com ela a mínima ligação familiar ou sequer vivencial, que não uns dias aqui, outros além, que terminam sempre com uma paz interior que o próprio clima também alimenta. No Pico a humidade não me irrita tanto, no Pico a chuva molha de outra forma, no Pico o sol é generoso e imponente, no Pico a brisa corre mais célere, tão longa é a costa e a sua viagem do mar. Aliás, é também a esta cultura marítima intrínseca que estas gentes devem a sua dureza meiga, sem palmo de dúvida também por 150 anos de vida baleeira, de caça em medo, de sustento corajoso, sempre com a bênção da montanha, mãe guardadora de intempéries e descansos.

Amiúde vou lendo o Pico pelos seus filhos mais emblemáticos, e um deles, porventura o maior, recorda que “numa batalha heroicamente ciclópica, varrendo do chão, em grande parte coberto de burgalhau e mais burgalhau, pedregulhos e mais pedregulhos, que tinham sido fogo vomitado pelos vulcões, nesse chão, nesses campos limpos e aplainados, aqui em pequenas chãs, ali tortuosas velgas a treparem pelas empinadíssimas encostas amparadas por grosseiros e sólidos muralhões, construiu, ele, o Povo, terra que lhe desse pão, ergueu casas, edificou templos; rompendo fragas, escarpas, rochedos, penedias, montanhas medonhas, hostis, derrubando arvoredo serrado, mataria grossa e furando por entre brenhas espessas, intransponíveis, abriu atalhos abriu caminhos, os caminhos que, pelo Norte e pelo Sul, durante séculos foram os nossos e que nós, os mais velhos, nesta parte oriental da Ilha ainda por longos anos conhecemos”. Que delícia e que visível por estas estradas e canadas este excerto de um Dias de Melo que deixou saudade aos seus, e que escreveu por este coração açoriano de forma ímpar. E depois o mar tem companhia no Pico, com estas outras ilhas em abraço a darem um alento à vista, aconchegando à solidão um olhar distante, naquelas casas brancas adiante, depois das ondas e dos cardumes. E porque também o mar “se engrossa a meio canal, e sorri para o Faial que dá gosto vê-lo”, como canta Fernando Tordo, daqui se sai num instante a outra aragem, se aporta à realidade vizinha, se regressa e reconfirma o especial de aqui pisar. Não só a uva dos czares, mas também o chão quente, que volteia ao longe a montanha vigilante, amorosa, mas imponente.

Este Pico é grande, e facilmente nos arpoa o coração. No melhor e mais suave sentido que a frase possa ter…

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