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PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

PORTO DAS PIPAS

miguel sousa azevedo - terceira - açores

30.Jul.10

Não, não é só por uma questão de gosto… (crónica)

Goste-se ou não, esté é o novo Relvão...

Não me lembro da última vez em que escrevi para exultar ou elogiar uma medida de fundo em Angra do Heroísmo. Não falo de dizer que “ficou engraçado” ou que “a coisa até está gira”, falo de atitudes que mudem rumos ou que façam fluir a cidade de outra forma, e de onde se excluem os “remendos” já efectivos ou as teimosias reinantes, mas adiante. Ao fim da tarde de quinta-feira –e já sei que imensa gente vai discordar da minha opinião, que vale o que vale… - fiquei estarrecido ao entrar no Relvão. Ainda antes da nota à comunicação social publicada, pude aferir o efeito do piso em betão colorido colocado há dias, num investimento para a requalificação do espaço. Confesso que o verbo “requalificar” me arrepia um pouco, especialmente quando de obras públicas se trata, assim como nem vou discutir as questões técnicas da intervenção, pois certamente a mesma terá sido regida por opções de qualidade. Agora sou livre bastante para questionar o princípio orientador de “asfaltar” (está entre comas por ser o modo que achei mais consentâneo com o desabafo), alargar e uniformizar os caminhos da zona verde de mais fácil acesso para a cidade de Angra, não tendo o texto qualquer intenção de indicar outras soluções. Aliás, não ponho em causa que se tenha agido assim para melhorar o espaço, mas critico com veemência a falta de gosto empregue e o apagar constante das ligações puras ao que é natural nesta nossa cidade. Convém explicar que o Relvão foi, na sua origem, uma espécie de baldio em jeito de complemento da plataforma de protecção da muralha. Por outras palavras, e em relação ao altaneiro castelo de São João Baptista, fazia com que quem atacasse a estrutura ficasse no espaço de tiro de quem defendia a fortaleza. Mas isso foi no início das andanças terceirenses, pois a História encarregou-se de por ali fazer passar feiras agrícolas, animações variadas como rodas gigantes ou carroceis, o circo, e mesmo jogos de futebol, transformando-se o Relvão numa zona verde sem grandes regras, mas onde as pessoas fruíam do espaço e contactavam com a baía e a natureza, bem ali ao sopé do Monte Brasil, cuja gestão partilhada nos irá impedir eternamente de ter um dos maiores e melhores parques da cidade do país. Daí que o meu desabafo não venha no sentido de se repetirem as frisadas actividades no Relvão, nada disso. E até porque as experiencias mais recentes de juntar povo por ali só deram dores de cabeça. Mas daí à pista que hoje lá se pode apreciar, e que até me parece estar a fazer aumentar os visitantes – daí a minha reticência inicial ao acordo geral com o que penso, mas é assim mesmo… -, vai uma distancia de uma vida, e o certo é que a “civilização” forçada que ali se quis impor nos últimos anos acabou com as memórias do Relvão. Da mesma forma que aquele tipo de intervenções acaba com um regresso da natureza à cidade, realidade que se vai cortando em prol do betão com ou sem cores, deixando a nossa gente de sentir o chão que pisa em defesa de uma urbanização exacerbada do que (ainda) existe. Curiosamente tudo isto acontece quando as autoridades municipais decidiram reanimar o jardim público, o que se aplaude, concordando-se ou não com o esquema encontrado. Mas também é verdade que tudo isto acontece quando esta mesma cidade vê crescer uma unidade de saúde enorme paredes-meias com o seu tecido central, sem preocupações de escoamento de trânsito ou de impactos vários; quando esta mesma cidade vê crescer um edifício cultural de vanguarda encaixado no seu nicho histórico sem eira nem beira na hora de escolher a sua localização; e quando esta mesma cidade não consegue decidir o que fazer à sua porta marítima porque o que se projectou está em meio no papel e ninguém é tido nem havido nas consequências dessa espera.

 

Não vou referir a diferença, em termos físicos, de se caminhar sobre betão ou sobre qualquer tipo de saibro ou bagacina, que até impelem uma locomoção mais custosa, nem tão pouco explicar a diferença a um miúdo de tenra idade do que é “aterrar” nesse tipo de piso em comparação com o modernaço betão. E até aproveito para referir que não faço parte de qualquer conluio de arautos da desgraça, como gratuitamente se vai rotulando quem defende alguma originalidade em prol das memórias desta terra. Mas o que agora se vê e sente no Relvão, por arranjadinho e limpinho que seja, podia ver-se em Oeiras, em Olhão ou, pior ainda, em Gondomar. Do Relvão de Angra restarão apenas as fotografias…e talvez algum cheiro.

 

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